O céu amanhecera fechado, num cinza espesso que se espalhava sobre o lago sem deixar espaço para o sol. A água estava quieta demais. Não havia ondas largas, nem vento forte, só aquela névoa baixa avançando devagar pela superfície, como se o frio tivesse escolhido ficar ali.
Cristal subiu na pedra central com cuidado. A sola da bota escorregou um pouco na umidade, e ela precisou ajustar o equilíbrio antes de endireitar o corpo. A armadura dourada ainda guardava brilho, mas já não tinha o aspecto intacto de outros tempos. Havia riscos nas placas do ombro, marcas pequenas perto da cintura, uma linha escurecida junto à lateral da proteção do braço. Coisas que não apareciam quando as pessoas olhavam de longe.
Erik veio logo atrás. Pisou na pedra com firmeza, como quem já sabia exatamente onde ela era traiçoeira, e parou ao lado dela sem dizer nada. Manteve a mão perto do punho da espada, mais por hábito do que por necessidade. Naquela manhã, não havia ameaça visível. Ainda assim, nele a vigilância parecia existir antes da escolha.
Os dois ficaram algum tempo olhando a água.
Ali já tinham estado outras vezes. Mas não daquela forma.
Dois anos haviam se passado desde o dia em que a luz cortara o vale e mudara o lugar dos dois dentro de Sagittaria. Desde então, muita coisa deixara de ser simples. No castelo, os corredores pareciam sempre mais curtos quando alguém vinha cobrar decisão. Os soldados mediam Erik com respeito e expectativa. O povo olhava para Cristal como se nela houvesse resposta para perguntas que ninguém sabia formular direito.
Até o silêncio, agora, parecia ter função.
Cristal puxou o ar devagar e soltou de uma vez.
— Faz tempo que a gente não vem aqui sem motivo.
Erik continuou olhando para a água.
— Hoje também tem.
Ela virou o rosto para ele, com um quase sorriso.
— Você tem um dom raro.
— Qual?
— Estragar a parte calma.
Ele a encarou por um instante, sério demais para quem sabia que ela estava brincando.
— Alguém precisa.
Cristal soltou um riso curto, verdadeiro, e balançou a cabeça.
— Você piorou.
— Aprendi com o castelo.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— O castelo te ensinou a ser insuportável?
— O castelo ensina todo mundo a falar menos.
Isso a fez baixar os olhos por um momento. Havia cansaço ali, embora ela quase nunca admitisse.
O frio da manhã subia da pedra para as pernas. A névoa tocava a borda da rocha, se abria e voltava a se juntar adiante. Do lado da margem, as árvores estavam quase apagadas pela umidade. Só os troncos mais escuros ainda se distinguiam.
Cristal cruzou os braços.
— Você lembra da primeira vez que a gente veio aqui?
— Lembro.
— Lembra mesmo ou está respondendo por honra?
— Lembro de verdade.
— Então fala.
Erik demorou um pouco. Ela percebeu. Sempre percebia quando ele escolhia com cuidado o que dizer.
— Você estava menos paciente.
— Isso é mentira.
— Não é.
Ela tentou segurar o sorriso, mas não conseguiu.
— E você?
— Eu falava mais do que devia.
— Essa parte eu não acredito.
Ele ignorou o comentário.
— Você me perguntou se eu achava que o lago escondia alguma coisa.
Cristal virou o rosto de novo para a água, surpresa.
— Eu tinha esquecido disso.
— Eu não.
— E o que você respondeu?
Erik apoiou melhor o peso numa das pernas.
— Que nem tudo o que fica quieto está vazio.
Ela ficou em silêncio.
Não era a frase exata da primeira conversa. Os dois sabiam disso. Mas era perto o bastante para tocar o que importava.
Cristal passou o polegar pela borda da braçadeira.
— Teve outra coisa.
— Teve.
— Então fala essa.
Erik respirou pelo nariz, sem pressa.
— Eu disse que um silêncio também podia ser resposta.
Agora ela assentiu devagar.
— Foi essa.
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse mais nada.
A água seguia imóvel, mas não de um jeito pacífico. Havia alguma coisa na quietude daquela manhã que não combinava com descanso. Era como se o lago estivesse esperando. Ou escutando.
Cristal sentiu isso primeiro no corpo, não na mente. Um aperto leve na nuca. Um desconforto pequeno entre os ombros, desses que parecem não ter motivo até você perceber que não está mais relaxado.
Erik notou a mudança nela e endireitou o tronco.
— Você sentiu?
— Senti.
A névoa do lado oposto da margem engrossou um pouco. Não foi vento. Não foi mudança do frio. Foi como se uma presença tivesse entrado no quadro e alterado o ar ao redor.
Erik tirou a mão do descanso e a firmou no punho da espada.
Cristal estreitou os olhos.
Uma figura começou a surgir entre o branco da bruma e o cinza das árvores. Passos leves, sem pressa. Roupas marcadas por viagem. O capuz úmido nas bordas. Parte de uma máscara azul-escura ainda cobria o rosto, deixando à mostra apenas o olhar cansado.
Jean.
Ele caminhou até a beira da água e parou a poucos metros da pedra central. Não parecia ferido. Também não parecia bem. Havia lama seca na barra da túnica, gotas presas nas costuras do ombro e aquele cansaço estranho que não vinha só do corpo.
Cristal foi a primeira a falar.
— E você ainda aparece sem aviso.
Jean olhou para ela. Depois para Erik. Depois para o lago.
— Aviso não teria adiantado.
Erik desceu da pedra primeiro. Não sacou a espada, mas também não relaxou.
— O que aconteceu?
Jean levou a mão ao peito, por baixo do manto, e retirou um pequeno volume enrolado em tecido escuro. O pano estava úmido.
— Fui até Halem — disse.
Cristal desceu em seguida.
— Sozinho?
Jean deu de ombros, num gesto curto.
— Como quase sempre.
Erik manteve a voz firme.
— Halem está sob as águas.
— Era o que diziam.
— E agora?
Jean estendeu o embrulho.
— Agora eu diria que ela acordou.
Cristal pegou o tecido, desfez o nó e abriu com cuidado. Dentro havia um fragmento de pedra escura, irregular, com uma das bordas partida de modo recente. Linhas finas corriam sobre a superfície, e por entre elas passava um brilho azul fraco, mas constante, como se alguma coisa estivesse viva ali dentro.
Ela aproximou a peça do rosto.
— Runas.
Jean assentiu.
— Do antigo idioma de Astra.
Erik franziu o cenho.
— Tem certeza?
— Não. Mas eu tenho certeza de que não estavam mortas.
Cristal ergueu os olhos para ele.
— O que você viu?
Jean não respondeu de imediato. Parecia escolher o ponto exato entre o que podia dizer e o que ainda não sabia como explicar.
— As estruturas baixas continuam submersas. As torres não. Parte da praça central reapareceu. E o símbolo do Véu estava gravado em três ruínas diferentes, todas recentes demais para terem ficado ali desde a queda da cidade.
— Recente quanto? — perguntou Erik.
— Recente o bastante para ainda reagir ao toque.
Cristal segurou o fragmento com mais força.
— Você tocou?
Jean olhou para a água antes de responder.
— Toquei.
— E?
— Nada que eu queira repetir.
Isso bastou para que o silêncio voltasse.
Desta vez, foi um silêncio diferente. Mais tenso. Mais próximo.
Cristal virou o fragmento entre os dedos, observando as linhas azuis.
— Você trouxe só isso?
Jean puxou outro pano do cinto. Dentro, havia poeira escura misturada a algo parecido com sal petrificado.
— Raspei isso da base de uma coluna. O brilho continuou mesmo longe da água.
Erik finalmente falou o que os três já sabiam.
— Isso muda tudo.
Jean inclinou levemente a cabeça.
— Ou talvez só confirme o que vocês já vinham evitando dizer em voz alta.
Cristal não gostou do tom.
— Evitando?
— Sim.
— Nós não evitamos nada.
Jean a encarou com calma.
— Evitam admitir que as marcas do Véu não estão voltando aos poucos. Elas já voltaram. Só ainda não escolheram aparecer da pior forma.
Erik deu um passo discreto para o lado, colocando-se num ângulo melhor entre Jean e Cristal. Não por desconfiança direta. Por costume de quem já aprendera que notícias ruins costumam chegar acompanhadas de outra coisa.
— Você viu alguém em Halem? — perguntou.
Jean demorou um pouco.
— Não vivos.
Cristal apertou o maxilar.
— Jean.
— Vi reflexos onde não devia haver reflexo. Vi escadas que não terminavam onde começavam. E vi inscrições brilhando debaixo da água sem que a corrente as apagasse.
Erik foi mais direto.
— Você viu uma entidade?
Jean demorou de novo. Havia cansaço no olhar, mas também resistência.
— Não completamente.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que alguma coisa me viu primeiro.
A mão de Cristal se fechou sobre o fragmento.
— Você trouxe isso para o castelo?
— Ainda não.
— Fez certo.
Jean a observou.
— Eu sabia que você diria isso.
Ela guardou o fragmento no pano outra vez.
— Porque se houver contaminação espiritual, eu não vou deixar entrar direto na biblioteca, nem nos salões do conselho.
Erik assentiu.
— Primeiro Problemática.
Jean soltou o ar pelo nariz.
— Claro.
Cristal o olhou com atenção. Havia água seca na gola da roupa. Uma pequena mancha escura perto da luva direita. As olheiras pareciam mais fundas.
— Há quanto tempo você não dorme?
Jean quase sorriu, mas o gesto morreu antes de virar expressão de fato.
— O bastante.
— Isso não responde.
— Eu sei.
Erik cruzou os braços.
— Então responde direito.
Jean ergueu os olhos para ele.
— Duas noites.
Cristal não gostou disso.
— Você voltou sozinho de Halem sem dormir por duas noites e acha normal me entregar isso na margem de um lago?
— Achei este lugar melhor do que o meio do pátio do castelo.
Ela respirou fundo. Não porque estivesse sem argumento, mas porque sabia que, em parte, ele tinha razão.
O lago voltou a prender a atenção dos três. A névoa se movia em faixas baixas agora, quase rente à água. O frio parecia ter aumentado.
Cristal colocou o embrulho sob o braço.
— Vamos levar isso para análise. E você vai descansar antes de sair correndo de novo.
Jean não respondeu.
Ela percebeu imediatamente.
— Não.
— Cristal...
— Não.
Erik fechou os olhos por um instante, como quem já sabia para onde a conversa ia.
— Vai partir outra vez? — perguntou ele.
Jean desviou o olhar para a margem distante.
— Preciso voltar antes do anoitecer.
— Para onde? — perguntou Cristal.
— Para leste.
— Isso não é resposta.
— É o que eu posso dar agora.
Ela desceu da pedra úmida e ficou a poucos passos dele.
— Você sempre faz isso. Aparece, traz metade da informação, entrega um presságio na nossa mão e desaparece antes que a gente saiba onde começa o perigo de verdade.
Jean suportou o peso da fala sem recuar.
— Porque às vezes o perigo começa exatamente quando alguém fica tempo demais no mesmo lugar.
— E você decidiu isso sozinho?
— Quase sempre preciso decidir sozinho.
Erik interveio antes que a voz dela endurecesse mais.
— Ele voltou para avisar. Isso já conta.
Cristal não tirou os olhos de Jean.
— Conta, mas não resolve.
Jean abaixou a cabeça por um momento. Quando tornou a erguer o rosto, a voz saiu mais baixa.
— Eu não estou tentando resolver. Estou tentando impedir que vocês sejam pegos sem ver de onde vem.
Ela ainda parecia irritada, mas havia outra coisa misturada ali. Cansaço. Medo. Talvez um pouco de mágoa antiga.
— Um dia você vai ter que parar de falar como se estivesse sempre a um passo de desaparecer.
Jean respondeu sem floreio:
— Eu provavelmente estou.
Essa frase a fez calar.
Erik olhou de um para o outro e decidiu encerrar o que precisava ser encerrado.
— Quando voltar, procure direto Problemática.
Jean assentiu.
— Procuro.
— E não demore demais.
— Não depende só de mim.
Cristal finalmente desviou o olhar.
— Nunca depende, não é?
Jean não respondeu.
O vento mudou um pouco. Foi pouco, mas suficiente para empurrar a névoa e abrir por um segundo um reflexo mais nítido da pedra central sobre a água. Os três ficaram imóveis. Havia alguma coisa errada no reflexo. A forma estava certa. A posição não.
Cristal viu primeiro.
— Erik.
Ele já olhava.
Na superfície do lago, por um instante breve demais para virar certeza, o reflexo da pedra mostrava três figuras.
Mas atrás delas havia uma quarta.
Alta. Imóvel. Sem contorno definido.
Quando a névoa se moveu outra vez, só restou a água.
Jean prendeu a respiração.
Erik levou a mão à espada sem tirar os olhos do lago.
Cristal falou quase num sussurro:
— Você também viu?
— Vi — disse Erik.
Jean deu um passo para trás, não por medo, mas como quem reconhece um sinal que não queria encontrar ali.
— Eu disse que alguma coisa me viu primeiro.
Cristal apertou o embrulho contra o corpo.
— Então ela seguiu você até aqui.
— Ou já estava aqui antes de mim.
Ninguém respondeu.
O som da água batendo na base das pedras voltou aos poucos, como se tivesse se afastado e agora resolvesse retornar. Um pássaro cruzou o alto da margem. Depois outro. O mundo parecia o mesmo. Mas os três sabiam que não era.
Jean recuou um pouco mais.
— Eu tenho que ir.
Cristal não tentou impedi-lo dessa vez.
— Vá.
Ele assentiu uma única vez para Erik, depois para ela. Em seguida virou-se e entrou de novo na névoa, sem pressa, mas sem olhar para trás.
Erik ficou observando até a figura desaparecer completamente.
Cristal ainda mantinha o fragmento junto ao peito.
— Ele vai se meter em alguma coisa pior.
— Provavelmente.
— E você fala isso como se fosse o tempo.
— Não. Falo como se fosse Jean.
Ela soltou um ar breve pelo nariz, entre humor e cansaço.
Depois os dois voltaram a olhar para o lago.
Agora, a água parecia mais opaca. Mais pesada.
— Você acha que foi real? — ela perguntou.
Erik pensou antes de responder.
— Acho que foi cedo demais para a gente ver.
— Isso não me tranquiliza.
— Não era para tranquilizar.
Cristal apertou os dedos em torno do pano úmido.
— Dois anos.
— Eu sei.
— Dois anos tentando manter o reino em pé, tentando entender o que a flecha mudou, tentando convencer todo mundo de que o pior já tinha passado...
— E você nunca acreditou nisso por completo.
Ela o encarou.
— Nem você.
Erik assentiu.
— Nem eu.
A névoa começou a se dispersar devagar, e por um breve instante o lago refletiu um pedaço mais claro do céu. Não chegava a ser luz. Era só uma abertura.
Cristal observou aquilo em silêncio.
— Tem horas em que eu queria voltar para antes.
Erik não perguntou “antes de quê”. Sabia a resposta.
— Eu não.
Ela o olhou, surpresa.
— Não?
— Não. Antes a gente só não sabia o tamanho.
Cristal ficou alguns segundos sem dizer nada. Depois, apesar de tudo, sorriu de leve.
— Você consegue ser duro até quando tenta consolar.
— Eu não estava consolando.
— Eu sei.
Os dois desceram da pedra central e seguiram pela margem em direção ao castelo. O pano com o fragmento pesava mais do que devia na mão de Cristal. O vento vinha frio do lago. Atrás deles, a névoa voltava a cobrir a água com a mesma paciência de antes.
Mas alguma coisa tinha mudado.
O lugar onde haviam se encontrado pela primeira vez ainda era o mesmo. A pedra, a margem, a água funda, o cheiro úmido da manhã. Ainda assim, já não parecia apenas um refúgio antigo ou uma lembrança preservada. Havia ali outra camada agora. Outra presença. Outra pergunta.
Ao longe, as torres de Sagittaria começavam a surgir entre a bruma.
Cristal ajustou o passo e segurou melhor o embrulho.
Erik caminhava ao lado dela, atento ao caminho e ao que não estava visível nele.
Nenhum dos dois falou mais nada até a trilha subir.
Atrás deles, o lago ficou imóvel outra vez.
E naquela superfície sem movimento, onde céu e água quase se confundiam, o pressentimento permaneceu — não como voz, nem como visão, mas como a certeza incômoda de que alguma coisa havia começado a se aproximar.
Livro I – A Flecha e o Véu — Capítulo 1