Muito antes de existir um trono em Sagittaria, antes de muralhas, juramentos e nomes gravados em pedra, o mundo ainda não tinha a forma que os homens conhecem.
Havia céu, havia terra, havia distância entre uma coisa e outra. E havia uma força viva, antiga, silenciosa, que ainda não havia escolhido como se mostrar.
Dessa origem nasceu Astra, a Guardiã da Luz Celestial e da Justiça.
Foi ela quem rasgou a primeira ordem sobre o caos. Com sua flecha dourada, separou o que antes estava misturado: o tempo da eternidade, o céu da terra, o amor do medo. Onde a luz dessa flecha tocou o mundo, surgiram os Primeiros Guardiões — seres ligados às constelações, às montanhas, às raízes e às forças que sustentam a existência.
Entre eles, nenhum era mais fiel do que Sagitário, o centauro das estrelas, feito para vigiar de longe e proteger aqueles que ainda teriam de escolher entre a coragem e a queda.
Mas a criação não nasceu limpa de tensão.
Da parte mais funda do sonho de Astra — aquela que nem mesmo a luz atravessa sem projetar sombra — nasceu Tharok.
Ele não desejava governar o mundo. Desejava tomar para si aquilo que o havia formado: o brilho da criação, a harmonia que não lhe pertencia e o amor que não podia suportar.
Sua queda foi violenta. Veio do alto como um raio invertido, trazendo estrelas mortas e corrompendo tudo o que tocava. Ao redor dele surgiram guerreiros moldados pela treva, os Espectros do Vazio. E foi assim que começou a Primeira Guerra da Luz — o primeiro grande confronto entre a ordem deixada por Astra e a sombra que queria apagá-la.
Astra venceu, mas pagou caro.
Enfraquecida pela guerra, ela selou sua flecha no coração do mundo e atravessou o Véu, deixando para trás uma promessa. Antes de desaparecer, falou aos que ainda seriam capazes de lembrar:
“Quando a última Lua Dourada tocar o solo de Sagittaria,
um arco será erguido por mãos humanas,
e a luz reencontrará seu caminho.”
Foi assim que a profecia começou.
As eras passaram. Reinos nasceram, ruíram e mudaram de nome. Templos foram abandonados. Bibliotecas afundaram. Povos inteiros esqueceram os antigos juramentos feitos para proteger Sagittaria, guardar os sinais de Astra e impedir que a sombra voltasse a tocar o mundo como antes.
Ainda assim, alguma coisa permaneceu.
A linhagem dourada continuou de pé. Os sinais do céu não desapareceram por completo. A lenda da Flecha Dourada sobreviveu em fragmentos: em ruínas cobertas de musgo, em inscrições que poucos sabiam ler, em livros que muita gente preferiu deixar fechados.
E talvez tenha sido melhor assim.
Porque Tharok nunca foi realmente destruído.
Ele apenas deixou de ser visto.
Agora, porém, o mundo começou a mudar outra vez.
Os ventos já não passam sobre o lago como passavam antes. As sombras demoram mais do que deveriam junto às muralhas do castelo. Há símbolos voltando a aparecer onde só deveria haver pedra antiga. E aqueles que caminham entre a lembrança e o presságio estão prestes a descobrir que certas profecias não morrem quando são esquecidas.
Elas apenas esperam.
E a espera terminou.
Livro I – A Flecha e o Véu — Capítulo 0
Prólogo
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